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domingo, 30 de agosto de 2009

HINO NACIONAL


Parte I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da pátria nesse instante.
Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Parte II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
"Nossos bosques têm mais vida",
"Nossa vida" no teu seio "mais amores."
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- "Paz no futuro e glória no passado."
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

DR JUVENAL

Dr Juvenal acabara de se formar em Direito.
Pensava em participar de uma eleição majoritária, quem sabe ser Senador ou Deputado.
Ainda que a hora não fosse das melhores ele acreditava que conseguiria sobrevoar as confusões.
Juvenal tinha nascido na Amazônia, estudou na Floresta com o Professor Platão, Professor Sócrates, Professor Heráclito, Professor Parmenides, Professor Pitágoras, e outros tantos.
Importante comentar que cada Professor desses era um animal diferente.
Quem sabe oportunamente podemos falar desses queridos mestres...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

JUIZ ORLANDO

Orlando estava muito feliz. Tinha conseguido passar no concurso para Juiz.
Seria o supremo Juiz da Floresta.
Todos teriam que consulta-lo sobre qualquer assunto.
Ele abriria as asas e com a devida formalidade faria o pronunciamento.
Orlando gostava muito das cerimônias, não perdia nenhuma.
Todos se aproximavam com o famoso Meritíssimo Orlando.
Alem das asas ele abria aquele sorriso que cativava a todos.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

OS CINCO AMIGOS

Se chamavam Mario, João , Euclides, Olavo e Machado.
Tinham nascido na Antártica, e quando queriam viajar, pegavam umas correntes marinhas.
Eram amigos da Baleia Moby Dick.
Adoravam fazer esportes. Nadavam muito, corriam um pouquinho, e sempre que podiam caminhavam para colocar a conversa em dia. Tinham assunto de montão...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

INTERNET


PARA PESQUISAR REVISTAS QUE PODEMOS ACESSAR PELA INTERNET :

PARA PESQUISAR LIVROS :

PARA PESQUISAR EBOOKS :

PARA LIVROS DE AUTORES PREMIADOS :

PARA TITULOS DE DOMINIO PÚBLICO EM INGLÊS :


FILOMENO E FILOMENA

Aquele casal era muito unido, passeavam todo dia para ver o por-do-sol.
Curtiam a natureza, admiravam os outros animais e ficavam muitos atentos com o Leão, sempre muito bonito, extremamente faminto, e todas as vezes imprevisível...
Filomeno estava procurando uma residência, estava cansado de ficar ao relento, queria uma caminha bem macia. Ele e Filomena iam casar em breve.
Aquela Selva estava grande demais, queriam um espaço mais íntimo.
Sabe como é, quem casa quer casa....

domingo, 23 de agosto de 2009

PENSANDO NO ALMOÇO !!!

Tinhamos acabado de chegar de viagem...
Maridão com fome !
Mulher com sono !
Preparar o almoço ?
Agora não !!!
Primeiro vamos descansar um pouco...
Aquele fotógrafo parece apetitoso, mas vamos fazer o quê com aquela máquina fotográfica ?
-Eu não sei fotografar-rugiu ela.
-Aprendemos logo, logo. Quem sabe fotografamos os humanos ?-regurgiu ele.
-Participar de blogs deve ser bom demais...-pensaram os dois.

sábado, 22 de agosto de 2009

CLARISSA



Clarissa tinha encontrado um bilhete de loteria na faculdade.
Perguntou para a turma se era de alguém, e todos responderam que não.
Colocou anúncio geral para tentar achar o verdadeiro dono.
O mais engraçado que o Prêmio ainda estava por sair.
Ela guardou no porta-luvas do carro, e lá esqueceu...
Quase no dia do grande Prêmio, adivinhem o que ela fez ?
Simplesmente rasgou o bilhete.
Compreensível essa atitude ?
Talvez algumas pessoas tenham medo de ser Feliz !!!
Infelizmente a Felicidade é para pouquíssimos...

(mais para frente, eu conto o que aconteceu depois)





quinta-feira, 20 de agosto de 2009

OS SAPOS

Nem sequer imaginavam que nós estávamos aqui.
Ao perceber o nosso olhar curioso, os sapos ficaram imóveis.
O desejo do maior era tentar passar impercebível.
O do menor era sair na foto bem bonito,
para assim, quem sabe, ser conhecido "around the world "....
Sapão era tímido !
Sapinho extrovertido !
Os dois estavam conversando sobre a fama na vida dos sapos quando sorrateiramente tiveram que suspender a conversa, e aguardar o que iria acontecer...

CAMPIDOGLIO BY MICHELANGELO





quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MOEDA CAMPIDOGLIO

PIAZZA DEL CAMPIDOGLIO

Ser projetada por Michelangelo Buonarotti, não é pouco.
Uma praça pequena mas charmosíssima.
Na Páscoa de 2005, participei como ouvinte de um Concerto inesquecível conduzido pelo genial Ennio Morricone (http://www.enniomorricone.com/home.html),
certamente motivação para um outro post.
Praça obrigatória para quem visita Roma, e ganhamos como bônus uma visita ao Museu Capitolino, belíssimo podendo ser visitado de noite.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

RIO DE JANEIRO (II)

Sexta- Feira, dia de praia...
Ponte Rio-Niteroi !!!
Chegar de avião no Rio é tudo de bom...
De brinde ganha-se a vista...
Pena que o avião é rápido...
Então ouvir Tom Jobim...


Samba do avião

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito prá mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Aterrar...


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

RIO DE JANEIRO (I)

Existem cidades que são inesquecíveis, independente de nascermos nelas.
Nasci na Cidade Maravilhosa !!!
Essa foto é extraordinária.
Cristo e o Pão de Açucar.
E para lembrar Dante Alighieri :
Escrever sobre o Rio é escrever sobre o Paraíso, o Purgatório e o Inferno...
Faça a sua escolha !
Eu voto no Paraiso !

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

FESTIVAL CORA CORALINA - GOIÁS VELHO


Em comemoração aos 120 anos de nascimento da poetisa Cora Coralina e
20 anos de criação do Museu que leva o seu nome, acontecerá de 19 a 23
de agosto o Festival Cora Viva Coralina.
programação:

Dia 19 de agosto (quarta-feira)
Local: Museu Casa de Cora Coralina
19 h - Abertura oficial do Festival Cora Viva Coralina
Inauguração da exposição permanente do Museu pela Caixa Econômica Federal
Homenagens aos beneméritos e funcionários do Museu
lançamento do livro: Moinho do Tempo -estudo sobre Cora Coralina
(orgs) Clovis Britto.Maria Eugênia Curado e Marlene Vellasco- SENAC/GO
Pré-lançamento do livro Cora Coralina: raízes de Aninha-(Orgs) Clovis
Britto e Rita Elisa Seda- Editora Idéias& Letras- Aparecida do
Norte-SP
Tributo a Cora: apresentação musical com Andréia Teixeira, Antonio
Roldão e Reinaldo Reis

Dia 20(quinta-feira)
Horário: 6h 30m-Alvorada festiva pela Banda do 6º BPM- percorrendo o
centro histórico
Horário: 9 horas - Roteiro Poético com os alunos das escolas públicas,
seguindo o roteiro do Itinerário Cora Coralina, com o arquitero
vilaboense Elder Rocha Lima
Horário: 11 horas e 16 horas
Local: Quintal de Cora- apresentação da pela "Os Meninos Verdes", com
o grupo Cia Voar de Teatro de Bonecos, de Brasília
Horário: 19 horas
Local: Igreja do Rosário- Largo do Rosário
Missa festiva em ação de graças pelos 120 anos de nascimento de Cora e
20 anos de criação do Museu. Participação especial do Coral Solo, da
cidade de Goiás
Homenagem da Assembléia Legislativa do Estado de Goiás- propositura do
Deputado Mauro Rubem
Lançamento do selo comemorativo pelos Correios e Assembléia legislativa
Apresentação da Banda do 6] BPM
Show com o cantor Marcelo Barra
partilha do Bolo do Vizinho

Dia 21 (sexta-feira)
Horário: 9 horas e 14 horas - continuação do Roteiro Poético
Horário: a partir das 12 horas
Local: restaurantes credenciados da ARPHOS
Roteiro Gastronômico - pratos inspirados na poesia de Cora
Horário: 16 horas
Local: Museu Casa de Cora Coralina
recital de poemas, apresentação de artistas locais e degustação de doces de Cora
Horário: 19 horas
Local: Auditório Brasilete Caiado - UEG
Mesa-redonda: Dentro e fora de Cora, a natureza em coralina
Palestrantes: Dr. Paulo Sérgio de Almeida Salles, professor Clovis
Carvalho Britto. professor Antonio Claudio Araújo Júnior, professora
Maria Luiza Gastal
Mediadora; Marlene Vellasco
Horário: 21 horas
Local: Teatro São Joaquim
Espetáculo teatral inspirado nos poemas e contos de Cora e Monteiro
Lobato - Grupo Teatro do Inconsciente Flor de Beco, de Brasília

Dia 22(sábado)
Horário: 9 horas ás 12 horas - visita guiada no Museu com apresentação
de poemas pelo músico e compositor Daniel Melo
Horário: 17 horas
desfile de moda e bijouterias - inspirados na obra de Cora -
apresentação de poesias e animação com o grupo Raizeiros
Horário: 19 horas
Local: Museu Casa de Cora Coralina
Lançamento do livro : Cora Coralina: Raízes de Aninha-Editora Idéias &
Letras- SP
Horário: 21 horas
Local: teatro São Joaquim
Apresentação da pela Teatral _Cora Coralina:Coração Encarnado com as
atrizes RenataRoriz, Rita Elmor e Tereza Seiblitz, direção de Orã
Figueiredo.
Horário: 22 horas
Show com o cantor ZECA BALEIRO e banda

Dia 23(domingo) Encerramento do Festival Cora Viva Coralina
Local:Teatro São Joaquim
Apresentação de Vídeos sobre Cora e apresentação da peça infantil: O
Prato Azul Pombinho,com a atriz Tina Lopes, de Ribeirão Preto.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

O PRIMEIRO LUGAR NO VESTIBULAR - ROSÂNGELA ROCHA



Uma amiga minha, de Belo Horizonte, veio ministrar aulas em Brasília, durante um fim-de-semana. Fomos jantar juntas e ela me perguntou, à queima-roupa, se podia dizer uma heresia. “Eu acho Brasília uma cidade feia, muito feia”, sussurrou. Ri da observação, não nos víamos há tempos e eu a deixaria dizer o que quisesse. Os minutos para conversar eram poucos, e não quis gastá-los expondo o meu espanto. Teria ela visto de perto, com calma, uma superquadra? Seus olhos teriam se fixado nesses imensos jardins muito verdes, cobertos de espatódeas e outras árvores? Reparara nos ipês, nas mangueiras dentro das quadras e nos eixos? Enquanto comentávamos outros assuntos, guardei essas perguntas para mim, com receio de quebrar a harmonia de tão raro encontro.
Dias depois dei de cara com outra amiga, que não via há mais de vinte anos, enquanto admirava uma cristaleira, na feira de antiguidades. Achei-a bem disposta, com ar jovial. Diplomata, trabalhou muitos anos fora do Brasil, e seu último posto fora em Paris, onde morou num amplo apartamento às margens do Sena. Contou-me que, tendo se aposentado há alguns anos, escolhera Brasília para morar, adquirindo aqui o seu apartamento. Voltei para casa pensando na escolha, no caso digna de nota, feita por alguém que viveu em tantas cidades lindas, como Bruxelas, Paris, Pequim, só para citar algumas.
Opiniões tão diferentes, emitidas por duas mulheres cultas e sensíveis, fizeram-me refletir. Como na música de Caetano Veloso (creio que se chama “Clarice”), fiquei pensando que mistério tem Brasília, que, mesmo quarentona, ainda é capaz de chocar, espantar, impressionar, encantar, como qualquer adolescente. E, mesmo que seus bem cuidados gramados e algumas de suas árvores revelem, a cada dia, que também para ela os anos passam, por que continua a conservar, pelo menos para aqueles que a visitam pela primeira vez, o ar de recém-nascida?
Ouve-se de tudo, sobre Brasília. Os lugares-comuns, então, esses parecem não mudar nunca: cidade sem esquinas, cidade sem vida, cidade da solidão. Há uma extensa lista de idéias e adjetivos a ela associados: ilha da fantasia, cidade do poder, capital da corrupção, lugar do tédio e do vazio, onde os olhos não encontram variações, sempre vendo prédios iguais, ruas iguais, frias, numeradas. Há quem diga que seu principal defeito é a falta do mar: “ah, se fosse no litoral até que dava para agüentar essa mesmice”, disse-me certa vez uma vendedora de um shopping. Seu povo, então, é chamado de tudo, antipático, arrogante, frio como iceberg. Alguns chegam a dizer que esta é a cidade do “sabe com quem está falando?”, do “jeitinho” e do apadrinhamento, em todas as suas tonalidades.
Pobre Brasília, quantos atropelos! Seu traçado cartesiano não pretendia separar, e sim unir as pessoas. A mesma amiga que a tachou de “feia” acha-a “socialista demais, os prédios praticamente da mesma altura e do mesmo tamanho”. O que ela não reparou, o que muitos não percebem, é que as semelhanças não são tão grandes assim. Tudo pode parecer igual, à primeira vista, mas há que estar atento para descobrir as diferenças, é preciso perceber as sutilezas. E, sobretudo, parar de comparar, amar a cidade como ela é, diferente mesmo, por natureza. Tão diferente que na minha quadra, como em outras, há mesinhas na área comum, debaixo de árvores, onde se reúnem, à tardinha, grupos de idosos jogando damas, cartas, pondo em dia as novidades. Em que metrópole encontramos algo assim, um divertimento de graça, na porta de casa? Que grandes cidades, pelo menos no Brasil, oferecem esses espaços enormes, abertos, para que façam deles o que for mais conveniente e agradável? Isso sem contar as flores, que dão à cidade feições de perene jardim, o ar despoluído, o seu fantástico pôr-do-sol e a beleza do Lago Paranoá.
Para quem a chama de fria, Brasília apenas ergue os ombros e sorri, com a autoridade de quem, há mais de quatro décadas, vem acolhendo pessoas de todas as regiões brasileiras, de todos os países, sem distinção. Ninguém é considerado de fora, embora só recentemente os nascidos em Brasília sejam maioria, nas salas de aulas das universidades.
A fim de saber o que sentiam, em relação à terra natal, e coletar opiniões sobre a cidade, distribuí aos meus alunos da Faculdade de Comunicação da UnB cópias da crônica “Brasília”, escrita por Clarice Lispector em duas épocas distintas: a primeira parte em 1962, logo após a criação, e a segunda em 1974, depois de nova visita da autora à capital. Como toda a sua obra, trata-se de um texto deslumbrante, no qual a sensitiva Clarice já anunciava tudo o que se disse posteriormente sobre a cidade, na sua linguagem ímpar, que não se assemelha à de mais ninguém. Foi uma experiência interessantíssima, especialmente para mim, que nasci no interior de Minas e morei em vários lugares. O texto agradou em cheio e senti que havia acertado na escolha.O seu frescor (parece ter sido escrito ontem) suscitou discussões acaloradas, que tomaram todo o horário da aula.
Clarice perguntou “como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem?” A esse respeito, lembro-me que um dos alunos disse estar triste porque passara seus dezoito anos morando numa superquadra e que, finalmente, a família iria realizar o sonho conjunto de morar em uma casa. Como no interior, seus amigos eram os vizinhos de bloco e sentia deixá-los, após tão longa convivência. Compreendi logo que, para ele, sua superquadra, aparentemente tão igual às demais, era única, inconfundível. Suas experiências lhe deram “humanidade” e libertaram-na da sua numeração. Agora, ela teria asas, pois iria com ele onde estivesse.
Segundo a autora, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer “não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério”. Essas e outras afirmativas, paradoxais e contraditórias, fascinaram e revoltaram os estudantes, como é comum acontecer até hoje, quando se trata da escritura de Clarice Lispector.
A impressão que tive, ao término da discussão, foi a de que, embora tenham um sotaque próprio, claramente brasiliense, que já pode ser reconhecido, os nascidos em Brasília, ao contrário do que muitos pensam, são tão comuns e tão humanos como os de qualquer lugar. E não poderia ser de outra maneira, diriam os pesquisadores. Sim, a rigor não poderia, mas durante anos houve uma grande especulação e até mesmo uma forte curiosidade para se saber como seriam, adultas, as crianças nascidas nas superquadras identificadas por números, sem nomes tradicionais, nos edifícios da mesma altura, vivendo, como disse Clarice, nessa “aridez luminosa e cheia de estrelas”.
Não, não é uma cidade perfeita (e nenhuma o é): há problemas difíceis de resolver, os índices de criminalidade são preocupantes, o trânsito piorou muito nos últimos anos, com o crescimento da população, que superou todas as expectativas. Mas ainda assim, por suas qualidades, pelo que tem de especial e único, acredito, como Clarice, que “Brasília é um primeiro lugar no vestibular”.


ROSANGELA ROCHA - O PRIMEIRO LUGAR NO VESTIBULAR




Uma amiga minha, de Belo Horizonte, veio ministrar aulas em Brasília, durante um fim-de-semana. Fomos jantar juntas e ela me perguntou, à queima-roupa, se podia dizer uma heresia. “Eu acho Brasília uma cidade feia, muito feia”, sussurrou. Ri da observação, não nos víamos há tempos e eu a deixaria dizer o que quisesse. Os minutos para conversar eram poucos, e não quis gastá-los expondo o meu espanto. Teria ela visto de perto, com calma, uma superquadra? Seus olhos teriam se fixado nesses imensos jardins muito verdes, cobertos de espatódeas e outras árvores? Reparara nos ipês, nas mangueiras dentro das quadras e nos eixos? Enquanto comentávamos outros assuntos, guardei essas perguntas para mim, com receio de quebrar a harmonia de tão raro encontro.
Dias depois dei de cara com outra amiga, que não via há mais de vinte anos, enquanto admirava uma cristaleira, na feira de antiguidades. Achei-a bem disposta, com ar jovial. Diplomata, trabalhou muitos anos fora do Brasil, e seu último posto fora em Paris, onde morou num amplo apartamento às margens do Sena. Contou-me que, tendo se aposentado há alguns anos, escolhera Brasília para morar, adquirindo aqui o seu apartamento. Voltei para casa pensando na escolha, no caso digna de nota, feita por alguém que viveu em tantas cidades lindas, como Bruxelas, Paris, Pequim, só para citar algumas.
Opiniões tão diferentes, emitidas por duas mulheres cultas e sensíveis, fizeram-me refletir. Como na música de Caetano Veloso (creio que se chama “Clarice”), fiquei pensando que mistério tem Brasília, que, mesmo quarentona, ainda é capaz de chocar, espantar, impressionar, encantar, como qualquer adolescente. E, mesmo que seus bem cuidados gramados e algumas de suas árvores revelem, a cada dia, que também para ela os anos passam, por que continua a conservar, pelo menos para aqueles que a visitam pela primeira vez, o ar de recém-nascida?
Ouve-se de tudo, sobre Brasília. Os lugares-comuns, então, esses parecem não mudar nunca: cidade sem esquinas, cidade sem vida, cidade da solidão. Há uma extensa lista de idéias e adjetivos a ela associados: ilha da fantasia, cidade do poder, capital da corrupção, lugar do tédio e do vazio, onde os olhos não encontram variações, sempre vendo prédios iguais, ruas iguais, frias, numeradas. Há quem diga que seu principal defeito é a falta do mar: “ah, se fosse no litoral até que dava para agüentar essa mesmice”, disse-me certa vez uma vendedora de um shopping. Seu povo, então, é chamado de tudo, antipático, arrogante, frio como iceberg. Alguns chegam a dizer que esta é a cidade do “sabe com quem está falando?”, do “jeitinho” e do apadrinhamento, em todas as suas tonalidades.
Pobre Brasília, quantos atropelos! Seu traçado cartesiano não pretendia separar, e sim unir as pessoas. A mesma amiga que a tachou de “feia” acha-a “socialista demais, os prédios praticamente da mesma altura e do mesmo tamanho”. O que ela não reparou, o que muitos não percebem, é que as semelhanças não são tão grandes assim. Tudo pode parecer igual, à primeira vista, mas há que estar atento para descobrir as diferenças, é preciso perceber as sutilezas. E, sobretudo, parar de comparar, amar a cidade como ela é, diferente mesmo, por natureza. Tão diferente que na minha quadra, como em outras, há mesinhas na área comum, debaixo de árvores, onde se reúnem, à tardinha, grupos de idosos jogando damas, cartas, pondo em dia as novidades. Em que metrópole encontramos algo assim, um divertimento de graça, na porta de casa? Que grandes cidades, pelo menos no Brasil, oferecem esses espaços enormes, abertos, para que façam deles o que for mais conveniente e agradável? Isso sem contar as flores, que dão à cidade feições de perene jardim, o ar despoluído, o seu fantástico pôr-do-sol e a beleza do Lago Paranoá.
Para quem a chama de fria, Brasília apenas ergue os ombros e sorri, com a autoridade de quem, há mais de quatro décadas, vem acolhendo pessoas de todas as regiões brasileiras, de todos os países, sem distinção. Ninguém é considerado de fora, embora só recentemente os nascidos em Brasília sejam maioria, nas salas de aulas das universidades.
A fim de saber o que sentiam, em relação à terra natal, e coletar opiniões sobre a cidade, distribuí aos meus alunos da Faculdade de Comunicação da UnB cópias da crônica “Brasília”, escrita por Clarice Lispector em duas épocas distintas: a primeira parte em 1962, logo após a criação, e a segunda em 1974, depois de nova visita da autora à capital. Como toda a sua obra, trata-se de um texto deslumbrante, no qual a sensitiva Clarice já anunciava tudo o que se disse posteriormente sobre a cidade, na sua linguagem ímpar, que não se assemelha à de mais ninguém. Foi uma experiência interessantíssima, especialmente para mim, que nasci no interior de Minas e morei em vários lugares. O texto agradou em cheio e senti que havia acertado na escolha.O seu frescor (parece ter sido escrito ontem) suscitou discussões acaloradas, que tomaram todo o horário da aula.
Clarice perguntou “como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem?” A esse respeito, lembro-me que um dos alunos disse estar triste porque passara seus dezoito anos morando numa superquadra e que, finalmente, a família iria realizar o sonho conjunto de morar em uma casa. Como no interior, seus amigos eram os vizinhos de bloco e sentia deixá-los, após tão longa convivência. Compreendi logo que, para ele, sua superquadra, aparentemente tão igual às demais, era única, inconfundível. Suas experiências lhe deram “humanidade” e libertaram-na da sua numeração. Agora, ela teria asas, pois iria com ele onde estivesse.
Segundo a autora, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer “não pensaram em construir beleza, seria fácil: eles ergueram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério”. Essas e outras afirmativas, paradoxais e contraditórias, fascinaram e revoltaram os estudantes, como é comum acontecer até hoje, quando se trata da escritura de Clarice Lispector.
A impressão que tive, ao término da discussão, foi a de que, embora tenham um sotaque próprio, claramente brasiliense, que já pode ser reconhecido, os nascidos em Brasília, ao contrário do que muitos pensam, são tão comuns e tão humanos como os de qualquer lugar. E não poderia ser de outra maneira, diriam os pesquisadores. Sim, a rigor não poderia, mas durante anos houve uma grande especulação e até mesmo uma forte curiosidade para se saber como seriam, adultas, as crianças nascidas nas superquadras identificadas por números, sem nomes tradicionais, nos edifícios da mesma altura, vivendo, como disse Clarice, nessa “aridez luminosa e cheia de estrelas”.
Não, não é uma cidade perfeita (e nenhuma o é): há problemas difíceis de resolver, os índices de criminalidade são preocupantes, o trânsito piorou muito nos últimos anos, com o crescimento da população, que superou todas as expectativas. Mas ainda assim, por suas qualidades, pelo que tem de especial e único, acredito, como Clarice, que “Brasília é um primeiro lugar no vestibular”.

domingo, 9 de agosto de 2009

ESCRITORES...


Passamos a semana lendo textos tirados do livro "Na Antevéspera", de Monteiro Lobato
A idéia é revisitar alguns textos de Autores que julgo primorosos.
O principal intuito é abrir o apetite literário, e quem sabe tentar estimular o leitor a fazer um mergulho mais demorado.
Essa natação é complicada, pois dependendo dos estímulos que recebe, vai se transformar num nadador, num comentarista ou num observador.
Lembrando do Livre-Arbítrio espero estimular as três primeiras opções.
Já adianto que em breve selecionarei textos de João do Rio, Euclides da Cunha e Mario Quintana entre os Mil e um que acho interessantes.



sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O NOSSO DUALISMO - MONTEIRO LOBATO



O nosso Dualismo

O futurismo apareceu em São Paulo como o fruto da displicência dum rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andrade. Turista integral, alternando estadias em Paris com estadias em Ribeirão Preto, leituras de Marinetti e outros com leituras d’“O Democrata”, de Pilão Arcado, visões de mármores de Mestrovich com santos de olho arregalado feitos na Bahia, apachismos elegantes de boulevard com o mumismo urbano de Marianas e Diamantinas — sentiu melhor do que ninguém a nossa cristalização mental e empreendeu combatê-la.

Mas combatê-la como? O velho processo do riso, da sátira, do sarcasmo sempre se revelou inútil entre nós. Dá resultados nos países de cultura disseminada, onde um riso como o de Voltaire se propaga em ondas hilariantes dum extremo do país ao outro. Aqui morre nos lábios de quem o arrepanha, porque a incultura não ondula coisa nenhuma.

Mas Oswald, psicólogo de fartos recursos, teve uma idéia genial: recorrer ao processo da atrapalhação.

— Esta gente, refletiu ele, está a jogar uma partida de xadrez que não tem fim; sempre as mesmas pedras, sempre as mesmas regras, sempre as mesmas saídas de peão do rei; sempre os mesmos xeques de rainha e torre. O riso, a piada de quem lhes sapeia o jogo de nada vale: não ligam, estão absortos demais. O recurso é um só, meter as mãos no tabuleiro e mexer as pedras como quem mexe angu.

E se justificava o angu com teorias metafísicas, transcendentalíssimas, tais teorias não passavam duma peninha (o futurismo), cujo fim era atrapalhar inda mais.

Sabem o caso da peninha?

Um sujeito propôs a outro esta adivinhação: “Qual é o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?”

Está claro que ninguém adivinhou.

— Pois é o gato, explicou ele.

— Gato com peninha na cauda?

— Sim. A peninha está aí só para atrapalhar.

As teorias estéticas dos futuristas são esta peninha...

Assim pensou e assim fez Oswald. E os enxadristas, com grande indignação, tiveram de interromper a partida interminável. Xadrez exige calma, repouso, ordem, regra, sistema, boa educação, e do mexer do angu nascera a desordem, a molecagem, o barulho, a extravagância.

O rei passou para o lugar do peão, a rainha deu de pular como o cavalo, o cavalo a ter movimentos de bispo e no fim de tudo quem levava o xeque-mate era quem saía ganhando.

“A besta de Homero.... A cavalgadura do Shakespeare... O cretinismo do Anatole...”

Inversão, ou melhor, atrapalhação, angu completo dos valores assentes. Dos valores e das regras. A gramática, a boa ordem, a justa medida, a clareza — pilhérias! Por que é que o pronome reflexo não há de abrir períodos? E zás: “Me parece que...” E o “você” expeliu o “tu”, e a velha asneira, que andava no refugo porque só os asnos a manuseavam, foi reabilitada, vestida à moderna e veio à tona de livros e jornais, toda garrida, provando mais uma vez que tudo vai da apresentação, e que um urubu preparado por Vatel pode saber melhor ao paladar do que uma perdiz assada pelas nossas cozinheiras do trivial.

S. Paulo é um meio muito rico de vitaminas mentais e só lá era possível que o gesto de Oswald criasse escola. Assim é que brotou do Bom Retiro, Brás, Bexiga e adjacências uma legião de asseclas. Como sempre acontece, poucos dos legionários compreenderam o alcance da “batalha de Ernani” oswaldina, puro “meio” para a consecussão de um “fim”. E esses bravos guerreiros de 18 anos, e menos, com raríssimas exceções adotaram o meio como fim. Atrapalhar, para Oswald, era o meio de conseguir descristalizar a mentalidade. Só. Mais nada. Ela depois que criasse o que lhe aprouvesse, livremente, sem nenhum dogma, nenhum quadro, nenhuma autoridade que a constrangesse. Não foi outro o objetivo de Oswald, embora ele próprio no calor da luta se iludisse e tentasse construir, esquecido de que as duas funções, a destrutiva e a construtiva, jamais cabem juntas a um mesmo homem. Oswald revelava-se aquele fecundo Nietszche do “Vademecum? Vadetecum!” Queres seguir-me? Segue-te!

Em vez disso a plêiade futurista, coesa no bloco do Quebra-Vidraças, deu de seguir Oswald, atrapalhando também, mas errada. Errava adotando a atrapalhação como fim supremo, objetivo de todas as manifestações artísticas modernas, e não como simples meio, único eficaz numa terra onde o riso de Voltaire, em vez de matar, engorda.

Por instinto, Oswald sempre repeliu os sectários e sempre refugiu de transformar sua colher de mexer, hoje colher de pau-brasil, em paradigma, em maracá sagrado. E passa a vida a criar cismas dentro do grupo, a dividi-lo, a renegar sumos pontífices, a expulsar adesistas — a impedir, enfim, que o chamado futurismo se cristalize em escola e passe a ser fim em vez de simples meio de combate.

Esta brincadeira de crianças inteligentes, que outra coisa não é tal movimento, vai desempenhar uma função séria em nossas letras. Vai forçar-nos a uma atenta revisão de valores e apressar o abandono de duas coisas a que andamos aferrados: o espírito da literatura francesa e a língua portuguesa de Portugal. Valerá por um 89 duplo — ou por um 7 de setembro. Nestas duas datas está exemplificado o modo de falar da escola antiga, francesa, e da nascente nacionalista.

Por que é estranho isto de permanecermos tão franceses pela arte e pensamento e tão portugueses pela língua, nós os escritores, nós os arquitetos da literatura, quando a tarefa do escritor de um determinado país é construir um monumento que reflita as coisas e a mentalidade desse país por meio da língua falada nesse país.

Formamos, os escritores, uma elite inteiramente divorciada da terra, pelo gosto literário, pelas idéias e pela língua. Somos um grupo de franceses que escrevemos em português — absolutamente alheios, portanto, a uma terra da América que não pensa em francês, nem fala português.

A eterna queixa dos nossos autores, de que não são lidos, vem disso — dessa anomalia de que não se apercebem. O público não os lê porque não lhes entende nem as idéias, nem a língua. Têm eles que se contentar com um escol muito reduzido de leitores também educados à francesa, os quais em regra preferem ir logo às fontes, aos franceses de lá, aos Anatoles e Verlaines.

Este dualismo de mentalidade e língua tem de cessar um dia. Os gramáticos hão de se convencer afinal de que a língua portuguesa variou entre nós, como acontece todas as vezes que um idioma muda de continente. Como o mesmo latim variou em França dando o francês, em Portugal dando o português, em Espanha dando o espanhol. E que continuará a variar, a distanciar-se mais e mais da língua mãe, até que um dia fique em face dela como está ela hoje em face do latim de Cícero. Seria fato virgem no mundo persistir imutável, apesar da mudança de continente, o instrumento língua — que é eólio e varia até quando muda para um país fronteiriço.

Em casos tais, freqüentes na história, a regra é a língua velha ir ficando cada vez mais confinada entre os eruditos, enquanto a nova se expande no povo. Por fim vence o povo, que é o número e a força. Nos países europeus de base latina o latim resistiu quanto pôde, escorado pelos sábios e eruditos, desprezadores da “corrupção” popular. Dia houve, porém, em que toda a resistência foi inútil e d’alto abaixo a língua se tornou una, pela vitória popular.

Entre nós estamos inda longe de tempo em que o português será língua apenas de um ou outro abencerragem feroz e não lido, mas tudo caminha para isso. O dissídio já está patente. O povo fala brasileiro e os próprios escritores que escrevem em português, não o falam em família. Em casa, de pijama, só se dirigem à esposa, aos filhos e aos criados em língua da terra, brasileiríssima.

Contou-me Bastos Tigre que a Rui Barbosa ouviu dizer de um autor numa livraria:

— Já conheço ele.

E ai de quem não falar assim no trato comezinho da vida! Não só ganha fama de pedante, de “difícel”, como não é bem entendido. Sobretudo ao telefone. Dada a necessidade de extrema clareza, ninguém ao telefone fala em português, se quer evitar complicações.

Bastos quis um dia falar, depressa, depressa, caso urgente, e esqueceu-se de que estava no Brasil.

— Alô! Se o excelentíssimo X está, obséquio, e grande, far-me-á o atendente, chamando-m’o.

Ninguém pescou. Bastos insiste. Nada. Berra. Nada. Por fim manda às favas frei Luiz de Souza e diz:

— O sêo Coisada tá aí? Quedele ele, então? Me chame ele já, sim, meu bem?

O Coisada acode pressuroso e Bastos jura nunca mais falar ao telefone em língua de escrever.

Já temos dois grandes escritores que escrevem na língua da terra, em mangas de camisa, e pensam de chapéu de palha com idéias da terra: Cornélio Pires e Catulo.

A elite franco-portuguesa ilha-os com o mesmo desprezo que tinham os faladores de latim em França e Itália para com os Dantes e Ronsards latinófobos.

Em 1559, um Thomaz Sebillet publicou uma coisa com este titulo: “Défense et Illustration de la Langue Française”, onde havia este pedaço: “Nossa língua não deve ser desprezada, même de ceux auquels elle est propre et naturelle, et qui en rien ne sont moindres que les Grecs et les Romains.”

Entende-se mal e mal o que o homem queria dizer, mas deduz-se que o francês nascente era “desprezado” pela elite latinizante.

O mesmo se dá entre nós. A língua de Cornélio e Catulo só merece sorrisos — e é no entanto a que vai vencer! Já a falamos e acabaremos, cansados de resistir, por escrever como falamos. Só então a literatura será entre nós uma coisa séria, voz da terra articulada e grafada na língua das gentes que a povoam.

A resultante da campanha futurista vai tender para apressar este “processus” de unificação. Mas não o realizará. Não é isso obra de um homem, nem de um grupo. É obra do tempo.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

MONTEIRO LOBATO EM 1933 - NOVO GULLIVER

Novo Gulliver

Há lembranças da meninice que jamais se apagam do cérebro adulto, mesmo quando esse receptador de impressões não consegue, por fraqueza senil, reter as da véspera. Lembro-me de um cromo de vivas cores, visto aos cinco anos, reclame da linha de coser Coat’s e não me lembro dos desenhos alegóricos a Cristo publicados nos jornais na última sexta-feira santa. Representava esse cromo um gigante estirado à borda do mar e enleado de mil fios de linha Coat’s; em redor formigava a legião dos pigmeus amarradores. De mãos à cintura, muito contentezinhos, confundiam a imobilidade do gigante, conseqüência do bom sono que dormia, com a imobilidade da mosca enleada por mil voltas da teia de aranha.

Mais tarde, quando chegou o belo tempo dos livros de Grimn, Andersen, Ségur e outros maravilhadores da imaginação infantil travei conhecimento com Jonathan Swift e tive a explicação do meu cromo de Coat. Representava Gulliver no país de Lilipute, amarrado durante o sono de mil cordas liliputianas. Mas Gulliver acordou, estirou os músculos e com um simples espreguiçamento rompeu, com grande assombro dos locais, toda a amarrilhoca que o prendia.

Quem trepa a um Corcovado imaginário e de lá procura ver em conjunto o Brasil, espanta-se da sua atitude. É um gigante deitado e amarrado. Mas não dorme; ofega com a respiração opressa e faz descoordenados movimentos convulsivos para romper o cordame enleador.

O Gulliver sul-americano principiou a ser amarrado pelos portugueses, quando Portugal descobriu que em suas veias circulava ouro, o sangue amarelo; e desd’aí até hoje os homens do cipó, vulgo homens de governo, outra coisa não fizeram, federal, estadual, municipalmente, senão dobrar cipós, cordas e fios de arame sobre seus membros para que, a salvo de pontapés, possam sugá-lo com as suas trombinhas de percevejo.

Portugal só organizou uma coisa no Brasil-colônia: o Fisco, isto é, o sistema de cordas que amarram para que a tromba percevejante sugue sem embaraços. Quem lê as cartas régias e mais literatura metropolitana enche-se de assombro diante do maquiávelico engenho luso na criação de cordas. Cordas trançadas de dois, de três, de quatro, de dez; cordas de cânhamo, de crina, de tucum, de tripa; cordas estrangulatórias de espremer o sangue amarelo e cordas de enforcar.

E assim foi até que um português de gênio impulsivo se condoeu da triste sorte do gigante e cortou o cordão umbilical que o prendia à Metrópole, corda mestra, corda mãe de toda a linda coleção de cordas fiscais secundárias. E o gigante respirou e viveu feliz, sobretudo no meio século de “compreensão” que o magnânimo filho do primeiro Pedro houve por bem outorgar-lhe.

Mas não há felicidade que dure mais de meio século. Uns bacharéis formados pela universidade da Lua e uns generais tentados pela serpente da traição implicaram-se com a velhice do príncipe magnânimo, acusaram-no de saber quatorze línguas, de assistir a exames de meninos, de boicotar com um célebre lápis azul os maus juízes, em vez de fazer as coisas interessantes que, quatrienalmente postos no lugar do velho sábio, eles, bacharéis e generais, fariam. E deportaram-no; meteram-no a bordo dum mau navio e:

— Vai ninar os netos de Victor Hugo. Tu não entendes de lidar com o gigante.

O bom velho partiu e os bacharéis e generais, a olharem-se uns para outros, sorridentes e gozosos, tomaram conta da casa.

Não diremos aqui das conseqüências inúmeras da mudança; basta que as sintamos todos os dias como o suplício da gota d’água; diremos somente da coisa capital que a república fez, faz e continuará a fazer. Estomagada com a liberdade de movimentos do bom gigante, resolveu amarrá-lo de novo. Foi às cartas régias da Metrópole e ressuscitou uma a uma todas as cordas e cipós fiscais rompidos pelos Pedros; recompô-las e começou a enlear pachorrentamente o pobre Gulliver. Amarra os braços, amarra as pernas, amarra as mãos; amarra, amordaça a boca para que não grite — e foi-se a Constituição; amarra, venda os olhos para que não veja — e lá se foi a imprensa.

Sobre o corpo de Gulliver desceram todos os arrochos. Não bastaram os cipós e cordas de invenção lusa; importaram-se cabos de aço, torniquetes complicadíssimos, borzeguins medievais, remodelados pela engenhosidade moderna. O Fisco tornou-se o objetivo supremo da república, a meta de todas as suas altas cogitações. Anualmente se reúnem, durante meses, centenas de técnicos cuja função é uma só: inventar novas torturas fiscais, novos aparelhos de sarjar as carnes e extorquir sangue à vítima.

Gulliver estertora. Todas as suas forças emprega-as em defender-se das cordas e ventosas que o Congresso torce e engenha. O Santo Ofício virou um marquês de Sade repartido em bancadas; não se contenta em tirar sangue, há que tirá-lo da maneira mais dolorosa, da maneira mais incômoda, da maneira mais lesiva ao organismo do bom gigante. A invenção do novo borzeguim — imposto da renda, excede a tudo quanto saiu da cabeça dos inquisidores: a vítima ignora o que tem de pagar e se não paga com exatidão incide em pena de confisco! E se em desespero de causa pede ao Fisco que lhe explique o mistério, que lhe dê a chave vertical e horizontal do quebra-cabeças, o marquês de Sade sorri e responde, diagonalmente:

— Pague com cheque cruzado, e explica com grande ironia de detalhes como se toma de uma régua, duma pena molhada em boa tinta e como se cruza um cheque.

Não há criatura neste país que não confesse um desânimo infinito. As energias do homem que trabalha e produz despendem-se por três quartos na luta contra a escolástica e o sadismo da cipoeira fiscal; sobra-lhe uma pequena parte para dedicar à sua indústria. Até esforço muscular dos dedos o sadismo do fisco lhe rouba. Pela manhã, ao acender o primeiro cigarro, tem que gastar o esforço de duas unhadas para romper o selo com que o fisco tranca as caixas de fósforos e os maços de cigarro.

Este engenhoso sistema de tortura tem em vista uma coisa só: permitir que sobre o corpo do gigante a vermina duma parasitalha infinita engorde em dolce far niente, como o carrapato engorda no couro do boi pesteado.

Vermina ininteligente! Consultasse ela os carrapatos e receberia deles um conselho salutar:

— É perigoso levar a sucção a grau extremo; morre o boi, e com ele a parasitalha.

Será que nem o instinto da conservação própria consiga meter um raio de inteligência nos miolos do triatoma megista?