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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

LÊDO IVO


O SONHO DOS PEIXES



Não posso admitir que os sonhos


sejam um privilégio das criaturas humanas.


Os peixes também sonham.


No lago pantanoso, entre miasmas
que aspiram à espessa dignidade da vida,
eles sonham com os olhos sempre abertos.

Os peixes sonham imóveis, na bem-aventurança
da água fétida. Não são como os homens, que se agitam
em seus leitos desastrados. Na verdade,
os peixes diferem de nós, que ainda não aprendemos a sonhar
e nos debatemos, como afogados, na água turva
entre imagens hediondas e espinhas de peixes mortos.

Junto ao lago que eu mandei cavar,
tornando verdade um incômodo sonho de infância,
interrogo a água escura. As tilapias se escondem
de meu suspeitoso olhar de proprietário
e se recusam a ensinar-me como devo sonhar.






THE DREAM OF FISHES



I cannot accept that dreams


are the privilege of human beings alone.


Fish also dream.


In the swampy pond, amongst miasmas
aspiring to the thickened dignity of life,
they dream with eyes always open.

Fish dream motionless, in the bliss
of fetid water. They aren’t like men, who toss
and turn in their unhappy beds. In truth,
fish are different from us, who have not yet learned to dream,
and we struggle, as if drowning, in turbid water
among hideous images and the bones of long-dead fish.

Beside the pond I ordered to be hollowed out,
making a troublesome dream of childhood come true,
I question the dark water. The tilapias hide
from my suspicious owner’s gaze
and refuse to teach me how I ought to dream.

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